Sonho Incontido

Já eram quatro e meia da manhã quando eu, habitualmente saía da casa do Edgar.
Todos os fins de semana eram a mesma coisa, bebedeira e drogas, sem contar as constantes orgias que ali aconteciam. Eu sempre via, mas nunca participei diretamente. Até ficava com uma ou outra pessoa, mas nunca mais de uma por vez. Falta de oportunidade eu acho.
Eu estava cansada de tudo aquilo, de ficar com aqueles “junkizinhos” malditos, e ficar repetindo as mesmas conversas sempre. Coisas que eles sempre julgavam saber, de como eram importantes, ou em como passavam a perna nos otários que conheciam.
No caminho pra casa, fiquei imaginando como seria bom se todos eles morressem,  de uma maneira cruel e desconfortável.
Imaginei hipóteses e fiz até alguns projetos sobre isso. Toda adolescente problemática, uma hora ou outra pensa em morte. Em como seria legal “limpar” a face da terra de alguns vermes insignificantes. Mas eu era medrosa demais  para fazer qualquer coisa.
Cheguei a minha casa e estava tão bêbada que não consegui nem me cobrir, apenas deitei e apaguei em menos de um minuto. Eu fedia a cigarro e vinho barato. Tentei não pensar no carinha que eu tinha beijado há pouco. Ele era bonitinho e tal, mas era estúpido como qualquer outro ali. Só pensava em si mesmo e em como iria disfarçar o quanto estava bêbado e drogado para o pai. Ria do som da própria voz.
Adormeci e logo tive um sonho estranho. Nele eu estava grande, e era forte. Meu corpo parecia não estar “preso” e eu me movia com tanta destreza e facilidade que parecia voar e não andar.
Dei uma bela olhada pra mim e fiquei pasma! Não podia me enxergar como isso era possível? Era como se apenas minha alma estivesse ali. Eu sabia que isso era impossível, mas como? Ah, deixe estar, sonhos nunca fazem sentido mesmo.
Andei por um tempo até perceber pra onde eu estava indo, na casa de Edgar! Tremi um pouco quando parei na entrada da porta, mas se era um sonho e eu não precisava temer. Entrei e o que vi me enojou. Eles estavam todos caídos, desmaiados pelo consumo excessivos de álcool e ou qualquer outra coisa. Vi todos eles e pareciam estar pedindo ajuda, algo como “por favor, nos tire desse sofrimento, não agüentamos mais essa vida que levamos”. Eu retirei das costas um tipo de machado, só que com o cabo mais longo, parecia uma foice. Levantei o mais forte que pude e acertei o primeiro. A sensação de ver seu sangue espirrando foi imensurável. Cortei-o inteiro e não poupei esforços. Agi como se tivesse todo tempo do mundo. Desfrutei cada centímetro daquele corpo antes de matá-lo.
Os outros nem se mexeram, pareciam nem ter ouvido nada. Peguei mais um e o levantei até a altura de meus ombros. Ele abriu os olhos e senti que ia gritar, mas fui mais rápida que ele. Tapei sua boca com uma das mãos enquanto eu apertava seu pescoço com a outra. Aos poucos, ele foi perdendo a cor - e a força. Tirei a mão que estava na boca e comecei a passear pelo corpo dele. Senti seu coração bater, bem fraquinho dentro do peito. Uma sensação tão enfadonha me tomou conta e nem percebi quando rasguei sua pele e retirei aquele órgão vermelho pra mim. Escorria sangue por minhas mãos, que apesar de não ver, eu podia sentir.
Era como satisfazer todos os meus desejos mais obscuros, mais vulgares. Eu me sentia bem de uma maneira como não me sentia há tanto tempo! Passei a boca no coração, que já tinha parado de bater. Lambi suavemente os dedos e me deleitei com prazer...
Joguei o corpo no chão e caminhei para o próximo. Dei um soco na cabeça desse, com tanta força que acho que ele morreu ali mesmo. Continuei cortando mesmo assim, afinal, não podia desperdiçar uma morte assim. O fatiei em tantos pedaços, jamais saberiam se aquilo era um humano ou um animal desossado.
Matei todos eles e senti um tremendo vazio ao ver que tinha acabado. Porque as coisas boas têm sempre que acabar tão rápido? Nem em sonhos eu me dava bem.
Já estava saindo quando escutei um gemido histérico de uma mulher. Olhei para os corpos no chão e contei, havia sete corpos. Naquela festa, contando comigo estavam dez pessoas e eu me lembro bem delas. Faltava o vermezinho que eu havia ficado e uma garota loira que me encarou a noite toda. Aquela pervertida, com certeza queria entrar no meio de nossos beijos, eu sentia isso.
O carinha já devia ter ido embora, tendo em vista que quando eu sai ele disse que estava com muito sono e que também já estava de saída. Com sorte, a menina tinha cheirado mais do que devia e agora estava trancada no quarto dos fundos, fazendo barulho pra alguém perceber e tirá-la dali. 
Fui me aproximando da porta lentamente e percebi que tinha uma musica tocando ali. Eu conhecia bem aquela música. Era musica pra transar, Marylin Manson. Será que eu me esqueci de alguém? Não, tenho certeza de que contei bem as pessoas e eu sempre me lembro quem estava nessas festas. Se algo meu sumisse, eu saberia quem acusar na segunda-feira.
Abri a porta e o que eu vi me deixou com uma excitação que não posso explicar. Aquela vadia estava transando com cara que eu fiquei. Ela estava por cima dele e gemia como uma perfeita atriz pornô enquanto ele estava por baixo, quase imóvel.
Encostei-me à parede e fiquei olhando para aquela cena. Confesso que gostei do que vi. Os dois corpos se esfregando, aquelas peles tão macias e quentes... Tive vontade de entrar no meio e “participar” da brincadeira. Lamentei ser um sonho, e não poder ver meu próprio corpo.
Comecei a me tocar e soube de imediato o que eu ia fazer. Eles também sentiriam meus toques. Subi na cama e percebi que a garota loira deu uma olhada para o meu lado, mas só de relance. "Continuem o que estão fazendo", pensei.
Toquei o corpo dela e relutante ela se entregou. Toquei os dois e finalmente fiz o que eu queria. Transei com os dois, e admito que gostei das caras de surpresas que faziam. A garota que olhava sem entender, parecendo sentir a presença de mais alguém ali, além dos dois e o garoto, que com toda certeza do mundo, estava se achando. Aquele drogado maldito.
Os dois estavam fumando quando eu me levantei e peguei minha “arma”. Cortei primeiro ele, só pra o ouvir gritar e passar vergonha perto da loira. Sua voz quase feminina, patética para um homem, mas no fim, todos os playboys são assim, despreparados para a verdade. Mesmo em sonho.
O lençol estava ensopado com aquele liquido vermelho, e eu apenas ria com prazer. A garota loira estava imóvel, em choque. Por alguns segundos eu pensei no que fazer com ela. Deixei ela ali, apavorada, sem entender absolutamente nada. Caminhei assoviando para a porta e fui embora. Era o fim de um sonho e eu apenas assoviava e cantarolava “Sweet Dreams”.
Ouvi um barulho chato e estridente. Meu despertador. Mas que ótimo, era domingo e esqueci-me de cancelar ele. Já que tinha acordado, resolvi beber um pouco de leite ou café, pra curar aquela maldita ressaca. Fui à cozinha e meus pais estavam lá. Correram e me abraçaram, chorando. Diziam que foi deus que me tirou de lá antes daquele louco chegar, que eu tinha sido poupada pelo destino, só pra poder fazer as coisas certas dessa vez. Agora sim eu tinha ficado louca. Já não bastava o sonho estranho que eu tive e meus pais falando merda logo de manhã.
Perguntei o que era e me mandaram ligar a televisão. O que vi me entristece até hoje. Aquela menina loira, no noticiário local, falando sobre como tinha escapado da morte, em como havia sido difícil ter que ver todos os seus amigos serem mortos por uma “força misteriosa”.
Aquilo não tinha sido sonho! Eu matei todas aquelas pessoas! O que eu irei fazer? E se me descobrissem? Entenderiam que eu estava em transe e que a culpa não tinha sido minha? Será que a culpa não tinha sido minha? Era o que eu queria não era? Matar todos eles...
Desliguei a t.v. e meu pensamento não saía da loira. Ela precisava morrer. Já sei exatamente o que vou fazer, dormir de novo... Eu estou indo, indo pegar você!

4 comentários:

  1. Juliana S. disse...

    Adorei a forma como você escreve!
    Seu conto é muito bom, aliás.
    Seguindo, sedenta por novas postagens. Beijo!

  2. Anônimo disse...

    A historia é sinistra,mais é otima,adorei.

  3. Idiótica. disse...

    Estou realmente impressionada com a mordibez do seu texto.. E simplesmente o fato de não conseguir parar enquanto não termina, cada parágrafo é uma novidade. Adorei..

  4. Jéssica disse...

    Virei fã desde a primeira história contada.

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